Instalando Linux no Nintendo Switch

Execute Linux no Nintendo Switch transformando-o em um tablet de propósito geral que é surpreendentemente satisfatório de utilizar!


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Quem for um leitor assíduo do site vai lembrar que já publiquei aqui quando rodei Linux num PlayStation 2, com o tutorial aqui, e também já publiquei a experiência de rodar Linux no PlayStation 3, com outro tutorial aqui. Ja falei aqui que tinham conseguido rodar Linux em outros consoles como o Nintendo Switch e o PlayStation 4, mas desde então não tive tais oportunidades. – Meu sonho vago é rodar Linux num PS4 ou PS5, que eu já vi que rodam até a Steam!

Agora, trago como é a experiência de rodar Linux no Nintendo Switch e, se você ainda não o fez, vai querer fazer, porque foi de longe uma das experiências mais fáceis e úteis que já vi para um console!

1. Motivações

Eu trabalho como SysAdmin de diversas empresas e dou suporte especialmente em servidores essencialmente Ubuntu Server com todo tipo de aplicação: KVM, Docker, OracleDB, LAMP Stack, entre outros tantos conhecidos da galera. Porém eu sempre sonhei com um hardware que fosse amigo do sysadmin:

  • Um celular ou tablet que pode ser x64 ou ARM64
  • Que seja razoavelmente portátil com bateria integrada
  • Com suporte a sistema Linux Desktop
  • Com recursos de WiFi e Bluetooth
  • Modo Dock – ligar a uma base e transmitir a imagem para uma tela com teclado e mouse
  • E que tenha todos os recursos de manutenção, conectividade e ferramentas típicas que um sysadmin poderia utilizar, de um shell completo a um navegador de internet que suporte plugins/extensões.

E isso é quase um devaneio meu, afinal, um simples notebook razoável já faz tudo isso e se torna o companheiro fiel de suporte quando utilizado em campo!
Porém eu sempre sonhei com algo mais portátil, menor, de bolso. E nisso muitos dirão:

Use um celular Android com Root! Um Samsung da linha S terá tudo isso e mais um pouco, até o modo Dex.

Isso é subjetivo demais pelo modo como eu trabalho e a resposta é um sonoro “não” porque Android não é Linux.

Não serve a esses propósitos. Mesmo rooteado, o sistema de arquivos é muito diferente – sequer temos uma /tmp exposta ao usuário – diversas ferramentas só existem como aplicações – ou seja, cada simples programa em /bin que deveria respeitar a filosofia KISS se torna um app extra, ou um conjunto deles, para sanar as dificuldades naturalmente existentes – e vários dos scripts que desenvolvi para o shell bash simplesmente não vão funcionar dentro do Termux a menos que eu gaste um bom tempo refinando ele à meu bel prazer. – Navegadores Android sequer suportam plugins/extensões de forma nativa e requerem a troca para versões editadas/modificadas e aí o rolê vai longe.

Resumindo, ao longo do tempo sistema Android foi mais dor de cabeça do que solução para meu uso, então o jeito foi me contentar com notebooks.

Depois descobri que existem sim mini-computadores como o GPD Pocket que satisfazem esse mercado perfeitamente. É essencialmente um celular com processamento x64 sistema e BIOS comuns – tanto faz Windows 11 ou Linux – que cabe na palma da mão. Alguns tem porta RJ45 o que os torna o sonho de qualquer dev!

Análise do GPD Pocket: um PC excepcional, mas de nicho, para o seu bolso | Windows Central

GPD Pocket, basicamente um celular com teclado físico mas processador x64

Mas o que eles são absurdos de caro e difíceis de comprar é algo que desanima qualquer um. Especialmente os modelos minimamente decentes, afinal também não convém usar um Celeron de bolso para esse tipo de rotina, precisa ser ágil e pequeno! E os modelos quad-core passam dos 6 mil reais facilmente. – Fiz uma publicação recente no Instagram, até fiz um cyberdeck Celeron… mas é muito lento e desengonçado.

Mas e o seu SteamDeck? Use-o!

O Steam Deck é excelente mesmo, tudo perfeito como eu gostaria, mas ele não é tão portátil, ocupa um belo espaço de um notebook. Ele ainda é carregado como um “mini trambolho em sua bolsa própria” e eu queria algo, se possível, ainda menor! Que cabe no bolso da calça.

Então fica difícil, o cara não gosta de nada….

De fato.

MAS cheguei perto disso! Com um Raspberry Pi 5 e um display de 7″ eu já tenho essencialmente tudo que eu preciso. O sistema, os controles, o I/O fisico com portas USB, desempenho decente, tela touch.

Beleza, conseguiu então finalmente!

Sim, perfeito, pra usar na bancada.

E só na bancada, porque ele falta a bateria. E não é simples criar um micro-netbook, uma cyberdeck ou mesmo um tablet usando um Raspberry Pi 5, uma bateria de lítio portátil decentemente grande, uma tela de 7″ e uma carcaça que fique digna e eu não pareça um “terrorista” pronto pra soltar minha C4 customizada.

O projeto Pilet é o que mais chegou perto de tudo que mencionei;
mas a página está parada e sem previsão de quando vão disponibilizar os códigos, peças, vendas, etc.

Os circuitos que mais complicam esse tipo de projeto é como recarregar ele e ainda poder usar na tomada, nem mesmo o famoso R36s permite isso: ou você recarrega, ou você joga: Os dois ao mesmo tempo não funciona, e isso por si só expõe o limite desse tipo de projeto altamente opensource. – E como um sysadmin, você não vai desligar o aparelho, botar na tomada e ficar aguardando a recarga! A coisa precisa fluir.

Game Console R36S Full Handheld Specifications - Retro Catalog

R36s

Então, depois de tantas andanças na internet e fritando a mente no chatgpt, lembrei do Nintendo Switch. Vi um pessoalmente, finalmente conheci o aparelho, usado, desbloqueado e mexi nele. Dei uma estudada sobre as possibilidades, o que temos de Linux pra ele, e meus amigos, ele é perfeito.

  • Um celular ou tablet que pode ser x64 ou ARM64
  • Que seja razoavelmente portátil com bateria integrada
  • Com suporte a sistema Linux Desktop
  • Com recursos de WiFi e Bluetooth
  • Modo Dock – ligar a uma base e transmitir a imagem para uma tela com teclado e mouse
  • E que tenha todos os recursos de manutenção, conectividade e ferramentas típicas que um sysadmin poderia utilizar, de um shell completo a um navegador de internet que suporte plugins/extensões.

A tela da versão OLED tem 7″ mas o corpo dele é infinitamente menor que o Steam Deck. Cabe no bolso.

Retirando os joycons, o Nintendo Switch é basicamente um pequeno tablet de 7″ levemente mais grosso que um celular comum.

TUDO é perfeito, exatamente o que eu queria! E ai vem a duvida:

E o sistema Linux Desktop?

Sim, tem. E ele é FUNCIONAL! Útil, responsivo e pode ser usado em produção. Outra dúvida:

E potência?

Tem também. Vou poupar a análise técnica porque estou a muitos anos atrasado pra isso, o console saiu em 2017, o modelo atual OLED em 2021. Mas a quem não se lembrar, as especificações do Nintendo Switch são as seguintes:

  • System on a chip (SoC) Nvidia Tegra X1
    Processador CPU Quad-core ARM Cortex-A57 @ 1.02 GHz (Até 2.3 Ghz no modo docked desempenho)
  • Memória RAM 4 GB LPDDR4
  • Armazenamento interno 64 GB eMMC
  • Suporta cartão de memória microSD até 2 TB
  • Tela de 7″, LCD ou OLED

Parece pouco, mas na prática esse processador + placa de vídeo do Nintendo Switch dá uma SURRA no Raspberry Pi 5 em todos os aspectos técnicos possíveis e imagináveis.

Em comparações grosseiras o Raspberry Pi 5 tem uma CPU teoricamente melhor…

… mas ao instalarmos um sistema Linux com interface KDE Plasma e utiliza-lo, a simples execução de vídeos no YouTube no Raspberry Pi 5 é sofrida e gargala – mesmo no RaspberryPiOS – o que no Nintendo Switch eu não vi tais problemas! O próprio desktop executa de forma fluída sem gargalos, os menus, qualquer aplicação desde o LibreOffice ao GIMP. Tudo funciona bem.

A GPU, que sim tem aceleração 3D em Linux, é infinitamente melhor que o Raspberry Pi 5 e isso ajuda bastante no fim das contas. A VídeoCoreIV, da RPi5 mal dá conta de soltar a imagem em 4K sem engasgar por completo, o que o Switch faz nativamente.

E isso não é mera impressão, a comunidade fez um excelente trabalho com os gráficos NVIDIA Tegra no Linux desktop.
É aonde o pequeno console realmente brilhou e, pelo que observo, fez a comunidade crescer tanto ao seu redor.

2. O Jailbreak

Contando um pouco de história, o console saiu em 2017 e, já em 2018 o grupo fail0verflow explicou em suas contas nas redes sociais que existe uma falha de segurança na ROM de boot do Nvidia Tegra X1. É possível explorá-la para rodar software não desenvolvido originalmente para o Switch. Ou seja, fazer o desbloqueio.

A Nintendo não tem como corrigir essa vulnerabilidade, porque a ROM de boot é armazenada no processador da NVIDIA, o Tegra SoC, permitindo que qualquer entusiasta carregue o Linux diretamente no console. Segundo eles, a falha simplesmente não pode ser corrigida pela Nintendo através de uma atualização de firmware — o que significa que todas as unidades disponíveis no mercado estão suscetíveis a ela pois a falha é a nível de hardware.

Algum tempo depois surgiu o desbloqueio por chip, semelhante aos chips MATRIX Infinity do PlayStation 2.

PS2 Atualização Do Chip De Desbloqueio

Chip MATRIX Infinity

E é aqui que a coisa fluiu de verdade! Com um desbloqueio por chip, tudo fica muito simples. – Como era no PS2.

3. Preparando o Terreno

Não há muito o que falar aqui. Você precisa do Nintendo Switch destravado. De preferência pelo modchip, que é o meio mais tranquilo de configurar um sistema Linux nele!
Você sabe que é destravado quando inicia e ele exibe isto sem um microSD inserido:

Switch destravado, separe um cartão microSD para o Linux. Senão, você vai precisar formatar seu atual microSD com o sistema customizado e perderá seus jogos e/ou progressos. – Na dúvida, faça backup de tudo primeiro.

4. Escolhendo um sistema customizado

Pode ser Linux Desktop ou mesmo Android. Os sistemas atualmente disponíveis são:

  • Android 15, 14, 11 e 10, além de outras versões como o 8, nas versões comum e AndroidTV.

Testei o Android 15, funciona perfeitamente com os Google Apps (GApps) conforme desejado, bastando injetá-lo via .zip com TWRP.
Se quiser fazer um root com Magisk pode também. Não há limites. São baseados no LineageOS, sendo o Lineage 22 a base do Android 15.

  • Ubuntu Bionic 18.04 (KDE Plasma ou Unity)
  • Ubuntu Jammy 22.04 (KDE Plasma ou Unity)
  • Ubuntu Noble 24.04 (KDE Plasma ou Unity)

Todos com kernel customizado 4.9. NUNCA troque o kernel! Ele tem os drivers Tegra necessários que não existem no mainline.

Fiquei no Kubuntu 24.04 LTS. Foi o sistema linux mais estável de toda a lista.
Não há opção para a interface GNOME Shell devido a uma série de bugs encontrados. Se assim o fizer, será por usa conta e risco.

  • Fedora 41
  • Fedora 42

Fedoras são problemáticos porque você não pode dar “sudo dnf update”, ao puxar os pacotes novos ele quebra o sistema. Você só pode dar “sudo dnf install app” e, ainda assim, alguns apps vão falhar por falta de dependências e inconsistências do sistema base com o repositório.

Tanto o Ubuntu quanto Fedora tem suporte aos Flatpaks e funcionam muito bem. Além disso o suporte a docker, podman e ferramentas como distrobox estão preservados em ambos.

  • Lakka 5.0 – basicamente o retroarch em forma de distro dedicada

Não testei esse, não me apeteceu. O Retroarch funciona bem no próprio CFW de games do Switch como um homebrew ou ainda dentro do próprio Kubuntu. De acordo com relatos nos fóruns, o retroarch de Kubuntu tem ainda melhor desempenho que o Lakka!

Não existem versões do archlinux até onde eu sei, nem de distros como Manjaro, Armbian ou outras.
Então a lista atual se limita aos acima.

5. Instalação

O tutorial completo e detalhado foi disponibilizado aqui, aonde a comunidade explicou, com prints, melhor do que eu jamais poderia!
Eles também explicam como fazer dump dos dados bluetooth dos joycons, assim eles funcionam dentro das distros ou Android. Então eu não vou repetir o trabalho magnífico que fizeram. O que vou agregar são os pormenores que podem surgir de dúvidas ou imprevistos:

  • Você pode copiar os dados do seu microSD atual para outro microSD e usa-lo de base.

Assim preservará o Hetake e não precisará de todo o procedimento via cabo USB injetando o modloader pra regravar o payload na bios toda vez que modificar um novo microSD. Isso poupa um tempo gigantesco: Formate o microSD como FAT32 e copie tudo pra ele (exceto os games). Com a base, e acesso ao Hetake, formate o microSD pela ferramenta nativa. Ela não apagará tudo, fazendo backup do payloader direto para a RAM durante o procedimento.

  • Na hora de formatar deixe pelo menos 10 Gb livres para guardar os dados do sistema antes de flashear o Linux/Android no microSD.

O Ubuntu consome aproximadamente 8 Gb e o Fedora 10. O Android também é aproximadamente 8 Gb. Se você esquecer disso e tentar ajusta-lo via gparted, quebrará o microSD. Faça tudo pelo formatador oficial dentro do Hetake.

6. Utilização e Experiência

Aqui vai meu relato e algumas fotos de como é utilizar Linux no Nintendo Switch!

6.1 Kubuntu

Quando o Kubuntu inicia ele vem com uma logo customizada do Switchroot:

E após um login comum pelo GDDM estamos na interface tipica do SteamOS Desktop do SteamDeck, um Plasma comum.

Interessante qual o teclado que vem quando se utiliza o touch, no caso não é o Maliit mas o Onboard que apesar de ter um pouco de input-lag, não prejudica a experiência, é altamente customizável e possui tudo que é essencial para qualquer tarefa complexa para não depender da navegação pelos joycons e caso não tenha teclado e mouse.

Mas se mesmo assim você quiser, pode usar os joycons! Bluetooth suportado, o esquerdo movimenta o mouse, o direito rola a tela, R2/L2 são os cliques, entre outras funções que tornam o uso um pouco melhor para quem não quer só o teclado da tela e/ou quer uma aplicação de tela cheia sem teclado virtual.

Se plugar o console na dock, ligar uma tela, teclado e mouse, é puramente um computador. Como o console suporta qualquer dock, mesmo genérica, pode utilizar o Switch como um computador com 2 telas, aproveitando a tela do corpo do console como extensão do desktop.

Interessante e pertinente mencionar que esse Kubuntu, tal qual o Fedora, vem com um recurso de configuração de clock de hardware:

O processador trabalha essencialmente no modo economia (1.6 Ghz), modo com maior potencia (2.0 Ghz) e alta performance (2.3 Ghz). O governador de CPU funciona economizando bastante energia sem prejudicar o uso, tal qual vemos nos jogos! Para tal, com um uso de puramente wifi e terminal acessando SSH o sistema previu que a bateria duraria absurdas 7h!

E controle da tela:

Que permite desde ajustar cor da tela, até ajustes dos joycons.

6.2 Android 15

O Lineage 22 dispensa comentários, é um bom Android em ARM64 com aceleração 3D e suporte a Google Apps, portanto não falta nada.
Interessante pontuar: O Switch tem acelerômetro e giroscópio no corpo do console…

… o que permite rotacionar a tela, tornando-o um tablet perfeito!

No menu de configurações do Android também tem um app/menu especial dedicado a ajustes do próprio Switch, incluindo forçar o governador de CPU para desempenho, o que vai espremer performance, mesmo se você estiver no modo console e não docked!

7. Conclusão

Se você tem um Nintendo Switch e quer dar mil utilidades pra ele, destrave-o! O destrave do modelo v1, v2, Lite e OLED é absurdamente bom e nos termos de consoles, é o mais legal que já vi! Com ele você pode:

  • Manter o sistema original intacto, ter sua conta na eShop e comprar jogos originais, jogar Online, etc e os jogos ficam nos 32 Gb internos do modelo comum e 64 Gb internos do modelo OLED;
  • Pode ter o sistema CFW pirata e os jogos baixados ficam no microSD.
  • Terá Homebrews diversas como o Chiaki e o Moonlight.
  • Pode trocar o microSD e ter Android 15 100% funcional com ou sem root, você escolhe.
  • Pode trocar o microSD e ter Linux Desktop Fedora ou Ubuntu 100% funcionais.

Detalhe: O CFW e os jogos piratas + Android + Linux Desktop PODEM SER INSTALADOS EM 1 MESMO MICROSD EM MODO MULTIBOOT! Basta que seu microSD seja grande o suficiente como 256 GB, particionar tudo via Hetake e partir pro abraço: Você terá uma tela de boot para alternar entre o firmware original, o pirata, o android e o linux desktop.

Agora, se você não tem um Nintendo Switch, pode reconsiderar a ideia, talvez um SteamDeck te satisfaça mais com emulador de Nintendo…e tem mais potência. Mas é mais caro.  Eu comprei de atrevimento entusiasta pra fazer modificações, não sou um grande fã da Big N. e não faço tanta questão dos jogos. MAS o aparelho é interessantíssimo quando modificado e abre muitas possibilidades de uso!

#UrbanCompassPony

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